Surpresas no Caminho - Parte I
Eis que o sábado amanheceu, e olhando para a cara do céu, já deu pra sacar que eu poderia ir da minha casa, na Zona Norte da cidade de São Paulo, até o ponto de encontro do CAB, no Ipiranga.
E então eu fui. Foram 20 km até lá. Um trajeto já conhecido, então, até aí, nada de surpresas.
A saída do ônibus estava programada para as 10h, mas o CAB não é o grupo mais pontual do mundo, e sempre rola algum atraso de leve, mas dessa vez, um participante do grupo se confundiu com o email que informava os horários, achou que a saída era às 11h e acabou atrasando todo mundo.
Nessa hora eu já estava começando a acreditar que a tal “trilha noturna” seria mesmo noturna, ou pelo menos uma parte dela o seria.
Ônibus na estrada, e após umas 2h, parada para o almoço em Miracatu. Seguimos viagem e então chegamos a Iguape. Após o desembarque dos passageiros, das bicicletas e da bagagem, ficou combinado que a “trilha noturna” começaria às 17h30.
Como eu não estava a fim de ficar no quarto do hotel vendo TV nessa quase uma hora que teríamos de pausa, peguei a minha bike e fui dar uma volta de reconhecimento pela cidade com mais um colega pedalante.
Iguape é uma cidadezinha bonita. É antiqüíssima, em se tratando dos padrões brasileiros, então se vê muita arquitetura colonial, em geral, muito bem preservada. Possui uma catedral dedicada ao Senhor Bom Jesus do Iguape e muitas outras igrejas, coisa típica das primeiras cidades do Brasil também. O ‘centro’ da cidade lembra muito o bairro do Pelourinho, na cidade de Salvador, Bahia, com vielas estreitas de paralelepípedos e as casinhas (quase todas convertidas em algum tipo de comércio) pintadas com cores vibrantes e coladas umas nas outras. A principal diferença é que no ‘Pelô’, a maioria das construções é assobradada, ou seja, com um pavimento superior, enquanto em Iguape predominam as construções térreas.
Geograficamente falando, Iguape é uma cidade bastante curiosa. Por estar situada exatamente na foz do (gigante) rio Ribeira do Iguape e por possuir diante de si a Ilha Comprida, existe uma estranha sensação de que se está em uma cidade do litoral, porém não há praias por perto. Sim, existe muita água por todos os lados, afinal ali é onde o rio se encontra com o mar, só que as praias estão todas do outro lado da Ilha. Algumas pontes e uma passarela de pedestres completam o visual, fazendo a ligação entre as duas partes da cidade (afinal o rio passa bem no meio dela) e também com a Ilha.
O relógio bateu 17h30 e lá estava eu na porta do hotel, esperando todo o povo descer para o passeio. Mais um pequeno atraso e saímos para a foto oficial, com todo mundo reunido, em frente à igreja mais próxima do hotel, e depois para o pedal rumo à Ilha.
Cruzando a grande ponte pedagiada que liga Iguape à Ilha, entramos em uma estradinha bem conservada que possui uma ciclo faixa em ambas as pistas. Esse é o tipo de coisa que todo ciclista gostaria de ver em cidades grandes como São Paulo, mas que infelizmente só se vê no litoral. Pra fazer aqui é ‘difícil’ pois tem muitos carros, ônibus, seus pontos de parada, etc… ou seja, desculpas não faltam.
No final da tal estradinha com ciclo faixas, cruzamos uma avenida, que deve ser a principal da Ilha, entramos na areia da praia e seguimos à esquerda, rumo ao norte da Ilha. O visual estava muito bonito, com uma luz típica de fim de tarde, o céu cheio de nuvens e o mar logo abaixo. Eu acho que a idéia original dos guias era alcançar a ponta da Ilha, mas o vento não ajudou.
Quem só anda de carro não faz idéia de como o vento contra pode atrapalhar a desempenho de um ciclista. Você olha aquela areia batida, plana como uma mesa de bilhar e imagina: “Hoje eu vou esmerilhar”. Mas quando você começa a pedalar e o vento contra bate no seu peito, é como se você mesmo fosse uma vela de uma caravela portuguesa te levando para trás. São suas pernas contra o vento.
Aí você lembra-se daqueles caras que correm com aquelas bikes speed naquelas provas de ciclismo, e lembra que a posição deles na bike é muito diferença da sua. Então você se abaixa, quase encosta a testa no guidão da bike, o rendimento da pedalada melhora, mas 2 minutos depois você volta à sua posição original devido ao incômodo nas costas e pescoço. O jeito e ‘peitar’ o vento, literalmente, e continuar lutando da melhor maneira possível.
Em plena praia, o grupo de 40 ciclistas se dispersou. Os mais preparados foram puxando forte no pelotão da frente, um monte de gente espalhada no meio e o pessoalzinho iniciante, que pega mais leve, no fundão. Eu gosto de parar para tirar muitas fotos, então fiquei a maior parte do tempo sozinho, no meião da tropa. Sozinho você pode fazer o seu ritmo, variar a velocidade a seu bel prazer, dar umas esticadas, parar quando quer, até pra fazer um xixizinho esperto, e o melhor, pode cantar a vontade e até falar sozinho, que ninguém vai se incomodar.
A noite foi chegando e o céu foi mudando de cor, passando por diversos tons de azul e roxo, até que a veio a escuridão total. Nessa parte da Ilha em que estávamos não existem quiosques na praia e muito menos iluminação artificial. É o breu total. Como o grupo estava muito disperso, os guias acharam melhor parar para fazer um reagrupamento e decidiram não continuar até a ponta da Ilha. O vento contra acabou por prejudicar a desempenho geral do grupo e se continuássemos adiante, o retorno ficaria ainda mais tarde e não conseguiríamos achar um lugar para jantar na cidade, afinal, Iguape não é São Paulo.
Iniciamos o retorno até o ponto onde estava prevista uma parada. Para combater a escuridão, acenderam uma fogueira no meio da praia e então foi servido o lanche: bananas, paçocas, salgadinhos e suco. Depois de forrar o bucho me afastei um pouco da rodinha que se formou ao redor da fogueira e fiquei um pouco mais perto do mar, sozinho, na escuridão, só ouvindo o som das ondas. Interessante essa sensação de completo isolamento. Em praias ‘normais’ é quase impossível fazer isso.
Ao término da parada, apagamos a fogueira com areia mesmo e seguimos nosso caminho de volta a Iguape. Dessa vez, com o vento a favor, a coisa ficou um pouco mais fácil. Na maior parte do caminho de volta, pedalamos na escuridão total e como não era todo mundo que tinha equipamento de iluminação na bike, formaram-se grupinhos que seguiam juntos, com gente iluminando e outros acompanhando.
Voltamos pro asfalto, pegamos novamente a estradinha com ciclo faixas e cruzamos a ponte. Chegamos ao hotel por volta das 22h, após termos pedalado aproximadamente 34 km, bem mais do que os 20 km informados na ‘propaganda’ do passeio. Já era meio tarde, mas o restaurante conjugado ao hotel nos esperava para o jantar conforme havia sido combinado com os guias. Após o banho, descemos para o jantar e uma cervejinha, afinal, ninguém é de ferro! A comida estava ruim, mas pelo menos a Original estava bem gelada.
Algumas pessoas resolveram dar uma volta pela cidade para ver o agito noturno de Iguape. Nesse quesito Iguape se assemelha muito mais às cidades do interior, ou seja, tudo acontece na praça. Nessa andança, a galera achou a balada local, que cobrava R$5 na entrada, mas ninguém teve pique para encarar a noitada. Na volta para o hotel, alguns ficaram em um barzinho de esquina, até que bonitinho, mas como no dia seguinte era dia de pedal forte, matei mais uma latinha de cerveja andando mesmo e logo fui pra minha cama.
Aguardem. Em breve, o relato do segundo dia da viagem.
Oldbard
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Uma resposta para “ Surpresas no Caminho - Parte I ”
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5 de Novembro de 2008 @ 08:36
Diego e Urso,
Parabéns pela inciativa de montarem um blog. Admiro muito vocês, e espero que mantenham esse site sempre atualizado, o que ainda não consegui fazer com meu blog. Estou me adaptando a nova casa, tem muita coisa pra arrumar, mas estou bem, camaradas.
Peter, a cidade do meu sogro fica pertinho de Iguape: Sete Barras. Essa região tem muitos bananais, base econômica de boa parte dessas cidades. Muito legal os seus relatos do passeio! Aguardo mais detalhes!
Um grande abraços, e parabéns a vocês!
Caio