Surpresas no Caminho - Parte II
O domingo amanheceu com céu cinzento, carrancudo. Logo pensei que a trilha seria debaixo de chuva, o que me desagradou profundamente, pois pedalar molhado cansa muito mais e como já havíamos pedalado bastante no dia anterior, o risco de muita gente não aguentar o tranco seria infinitamente maior.
Após um café da manhã reforçado, o povo já começou a se movimentar para retirar as bikes do local onde elas estavam guardadas, e em pouco tempo já estava todo mundo reunido na rua para iniciar a trilha. Alguns pingos ameaçadores caíram, mas a chuva não veio.
Importante registrar aqui que o passeio do sábado provocou uma baixa no time: uma menina que não estava habituada a pedaladas longas sequer pensou em começar o passeio do domingo e foi de carona no carro de apoio. Acho que às vezes as pessoas subestimam os obstáculos, ou simplesmente superestimam (essa palavra existe?) as suas capacidades.
E então o passeio começou pelo asfalto. Logo de cara uma pirambeira extremamente íngreme. A maioria empurrou a bike, mas eu não me fiz de rogado e usei todos os recursos que uma bike de 27 marchas tem a oferecer e subi pedalando. Confesso que como eu ainda estava frio, cheguei ao topo com os batimentos cardíacos acelerados, mas logo a coisa se normalizou e tudo correu sem maiores problemas.
Depois da piramba inicial, seguiu-se uma serrinha de leve, com algumas descidas e subidas que não comprometeram a desempenho, até que veio uma super descida, ainda no trecho de asfalto. A descida era tão íngreme que conforme a bike ia se aproximando dela não era possível ver a continuação da estrada. A sensação de que se está aproximando de um abismo é muito esquisita, e naquela fração de segundo em cima da bicicleta você sabe que não tem freio que segure então você simplesmente se joga ladeira abaixo.
Eu queria ‘deitar o cabelo’ nessa descida, mas tinha um ciclista à minha frente descendo num ritmo relativamente lento, então eu fui obrigado a segurar um pouco no freio pra poder desviar dele, e por isso acabei alcançando uma máxima de quase 62km/h. Se a pista estivesse limpa na minha frente, facilmente eu alcaçaria os 70km/h, mas tudo bem, afinal, temos que respeitar o ritmo de cada um.
Daí pra frente foi quase tudo plano, pois passamos a margear umas águas que até agora eu não sei se eram de rio ou de mar. Ali em Iguape o rio e mar se misturam demais e realmente há pontos em que não há como saber o que é o que. Só vivendo um tempo por lá para poder aprender onde está cada coisa.
Logo à frente, o asfalto virou terra, que depois virou areia. A estrada relativamente boa virou uma estrada de chão e o passeio ganhou mais emoção. Tudo bem que a paisagem não era das mais lindas que eu já vi, o que rendeu poucas fotos, mas pedalar na terra é sempre legal e estar longe da poluição e do barulho de São Paulo é uma dádiva.
Chegamos então a uma bifurcação. Um “Y” no meio da estrada. De um lado uma estrada com um asfalto novinho em folha, que sequer havia recebido a pintura das faixas de sinalização horizontal, e do outro, uma continuação da estrada de terra, areia e pedras por onde viemos. Os guias pararam o passeio para reagrupamento. Um dos guias disse que nosso caminho original deveria ser pelo caminho que provavelmente fora asfaltado naquela mesma semana, pois eles haviam feito o passeio anteriormente para mapeá-lo e naquela ocasião o asfalto ainda não havia sido colocado.
Então se decidiu por seguir pela estrada de chão. Logo ela acabou e entramos na vila de Icapara. A vila, muito, mas muito pequena mesmo, logo acabou, e saímos novamente na estrada de asfalto, aquela mesma da bifurcação. Seguimos pelo asfalto novo e isso melhorou a média de velocidade, mas diminuiu sensivelmente a graça do passeio. Para nossa sorte, em geral, as obras no Brasil são feitas de modo ‘conta-gotas’, e logo voltamos pra estrada de chão novamente.
Seguimos adiante e em determinado momento a estrada simplesmente acabou na beira da água. Calma. Não era o fim do mundo, e sim um pier para embarque numa balsa, ou ferry-boat, para os mais antigos. Nova parada para que todos chegassem e um ataque aéreo se iniciou. Ao contrário dos borrachudos, que se encontra aos montes na região da Juréia, ali fomos atacados por umas mutucas gigantes que não simplesmente picavam, mas mordiam as nossas pernas e braços. Pelo menos a ferida não coçava depois, como as picadas de borrachudos!
Mas esse detalhe sangrento não estragou o momento. Havia ali um boteco e algumas pessoas já estavam devorando uns salgados e matando umas Coca-colas de 2L. Eu pedi uma coxinha que havia acabado de ser frita e tomei uma Coca-cola de garrafa de vidro, coisa cada vez mais rara aqui em São Paulo.
Com todo mundo ali, rolou mais um ‘Conselho Jedi dos Guias do CAB’ e eles optaram por voltar dali mesmo. Acho que a idéia original era pegar a balsa e finalizar na ilha, que eu acredito era a tal Ilha Juréia, apesar de não haver nenhuma indicação com esse nome.
Quando todos mataram a fome iniciamos o retorno pela estrada de chão que logo virou asfalto. Novamente, chegamos a uma bifurcação na estrada. Outro “Y” no meio da estrada. Novamente o asfalto novinho de um lado e a estrada de chão do outro. Paramos para reagrupar e continuamos pelo asfalto até chegarmos à bifurcação que topamos na ida. Ali o asfalto sumiu e retomamos a estrada de terra, areia e pedras.
Nesse momento, já haviam outras duas vítimas no carro de apoio. De vez em quando é bom ver essas coisas para lembrar que ninguém é de ferro e isso pode acontecer com qualquer um, até com ciclistas mais experientes.
Continuamos pela estrada de chão até voltarmos pro trecho de asfalto. Ali sabíamos que estávamos entrando no trecho final do passeio, e que aquela super descida do começo agora se transformaria em uma super pirambeira, e que logo depois dela viria uma serrinha, mas que diferentemente do começo do passeio, não teria nada de light, afinal, o cansaço já começava a aparecer.
Novamente fui obrigado a usar todos os recursos da minha bike para vencer a super pirambeira. Morro acima, devagar e sempre, fui passando o pessoal que empurrava as bikes. Dessa vez nada de surpresas com os batimentos cardíacos!
No topo, mais uma parada para reagrupamento e lanche. Mas o lanche estava no carro de apoio, que logo ficamos sabendo havia retornado até o boteco, lá perto da balsa, pois uma menina havia perdido a câmera digital dela e suspeitava ter esquecido por lá. Esperamos, e o carro de apoio chegou, com as vítimas, o lanche e a câmera da moça. Bananas, salgadinhos, suco e Gatorade para dar uma tapeada no estômago, afinal, tão perto do final do passeio, eu só pensava no almoço. Comida de verdade, é claro.
Todos alimentados, seguimos para o fim do passeio. Ainda rolou mais uma parada para reagrupar antes da última descida (aquela subidinha do início, lembram?) e logo estávamos todos no hotel, após termos pedalado aproximadamente 40km, pouco mais do que os 32km informados na ‘propaganda’ do passeio.
Rapidamente os guias iniciaram o processo de colocação das bikes sobre o ônibus, e enquanto isso o povo foi se encaminhando para o chuveiro e para o almoço. Alguns optaram por comer novamente no restaurante do hotel, mas como a janta não foi muito feliz por lá, alguns foram procurar outro lugar para comer. Eu e meu amigo optamos por dar um giro e achamos um lugar interessante para comer e ver a Fórmula-1 na TV. Depois voltamos para o hotel, onde pudemos ver a corrida quase até o final, quando subimos no ônibus faltavam umas 5 voltas para o final.
Pegamos muita chuva na estrada que liga Iguape à BR e isso foi bom para lavar as bikes. Mais uma parada em Miracatu e logo chegamos ao caos de São Paulo. Só para chegar no Ipiranga levamos quase uma hora devido ao trânsito congestionado da capital.
Com tudo e todos desembarcados, montei minha bike, coloquei a mochila no bagageiro e fui pedalando até a Estação Tamanduateí da CPTM. O trem demorou para passar, mas depois foi rápido até a Estação da Luz, onde me transferi para o metrô e segui rumo à Estação Tucuruvi, onde novamente subi na bike para a pedalada final até em casa.
Para aqueles que são tarados por números e estatísticas, seguem os números gerais do fim de semana.
Velocidade Média
|
Velocidade Máxima |
Tempo de Roda Girando |
Distância Percorrida |
Descrição
|
|
21,2 |
37,8 |
00:58:14 |
20,64 |
Minha Casa - Ipiranga |
|
10,3 |
20,8 |
00:34:16 |
5,90 |
Reconhecimento: Iguape |
|
12,7 |
32,2 |
02:43:29 |
34,86 |
Passeio Noturno |
|
16,4 |
61,7 |
02:27:42 |
40,49 |
Passeio Domingo |
|
12,8 |
32,4 |
00:38:29 |
8,20 |
Ipiranga - Casa (com trem e metrô) |
Até o próximo post.
Oldbard
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